Especialistas e movimentos refletem sobre novos caminhos para a saúde coletiva

Qual o caminho para garantir saúde pública de qualidade? Esta foi a pergunta nas atividades iniciais do Fórum Permanente “Saúde coletiva aplicada à vida: cidadania como produção de saúde”, nesta sexta-feira. “Ninguém é livre se não tem dinheiro”, advertiu a médica-cirurgiã boliviana Vivian Tatiana Camacho Hinojosa na palestra de abertura do evento. “O complexo médico farmacológico nos faz dependentes da medicina de consumo. Temos de olhar isso criticamente”, declara ao chamar atenção para a influência negativa do consumismo. “É uma vergonha que agora, no mundo, se você não tem dinheiro e vai procurar saúde, tem a porta fechada. Isso acontece no mundo todo.”

Membro do Conselho Mundial pela Saúde dos Povos, ela criticou o ciclo vicioso de consumo da medicina ocidental, em sua opinião influenciada pelo capitalismo durante a palestra. “A medicina hegemônica foi criada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), porque eles são amigos das corporações farmacêuticas e do complexo médico industrial, do complexo alimentar, do complexo de produção de armas. Então, temos de ter olhar crítico também para qual a classe da medicina queremos em nossa saúde.”

Para Vivian, o capitalismo envenena o mundo a partir de cultivo dos transgênicos. “O complexo alimentar tomou as mentes com o consumo de transgênicos que envenenam o alimento, a água, o ar. Precisamos conhecer isso. Se o alimento fica envenenado, a gente não vai ter saúde.”

Além de se construir a partir da legitimação dos direitos humanos, a saúde se constrói dentro de um processo de luta por justiça social, na opinião da médica. Ela chama atenção para a forma como o capitalismo devasta o mundo e salienta que, apesar de alguns governos levantarem muros, os movimentos sociais pela saúde existem também para lembrar que o mundo é uma grande comunidade. “Precisamos questionar as relações de poder. As relações de poder no mundo são evidentes.”

Vivian elogiou o fato de o Fórum Saúde Coletiva Aplicada à Vida ter sido organizado por alunos e docentes do curso de Mestrado Profissional em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Como debatedor, o professor Wagner Romão, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, também manifestou satisfação em participar de um evento organizado por equipe de um curso de mestrado profissional e revelou o intuito do IFCH de criar mestrado profissional para travar diálogos com políticas públicas e ativistas. “Nosso Núcleo de Pesquisa em Participação em Movimentos Sociais e Ação Coletiva fica à disposição para manter conexão.”

Para Romão, a conferência de Vivian foi espetacular porque a Bolívia, em processo mais recente, é o exemplo mais bem-acabado de um processo revolucionário de um país vizinho em que nacionalidades que estavam silenciadas 400, 500 anos passaram a ter protagonismo, estabelecendo nova constituição política e criando novo estado plurinacional e que pratica este tipo de relação com trabalho escravo.  “Esse momento que deu novo status às empregadas domésticas. E isso alterou as relações dentro da casa das pessoas, as relações de trabalho e torna e mostra o que houve de avanço e o quanto há de retrocesso em tão pouco tempo do governo que aí está.”

Para a diretora de Cultura da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da Unicamp, Verônica Fabrini, o tema saúde coletiva remete a uma ideia ampla de cultura.  “Ficamos felizes por abrigar este evento, pela pertinência e urgência do tema, pois quando lemos coletivo e cidadania vem a ideia de comunidade.” Ela manifestou a honra em abrigar o fórum na recém-criada Diretoria de Cultura da Preac. “Sáude com sinônimo de vida digna; saúde como dignidade do ser; dignidade dos povos e suas maneiras diversas de lidar com a vida, de resistir, de construir em favor da vida. O respeito pela vida e pela diversidade da vida é o que dá este sentido e a alegria deste simples ato que é de coexistir.”

Os profissionais da área de saúde da família enfrentam “momento civilizatório muito delicado”, de acordo com o médico Stephan Sperling, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares e membro do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). “Cada vez mais a perspectiva que se coloca para a saúde é rebaixar o direito a ela ao direito a acesso e equipamento. Isso é como fraudar a compreensão de saúde como um produto comunitário, societário e civilizatório”, enfatiza.  Para ele, é preciso recuperar a discussão do médico de família, principalmente no seio do sistema e do debate da saúde como um direito construído por meio de rede, do diálogo comunitário. “O papel comunitário nesta questão da saúde é justamente recuperar este sentido porque é um profissional muito disputado pelo assédio liberal da individualidade de seu consultório, de sua técnica. Então, este é um momento de reafirmar, mesmo na adversidade, este projeto civilizatório que a gente tem da saúde de nosso país.”

Médico da família na região oeste de São Paulo, Sperling atribui a difícil realidade de sua área ao sistema “engessado e com entraves”, além, dos desafios de gestão que se apresentam. “Como médico de família é assédio liberal da finança em relação ao produto técnico, ele não é mais visto como interlocutor da comunidade para produzir cuidado, é visto para reduzir custo. O médico de família não é visto como aquele que consegue coordenar cuidado, mas aquele que faz a rede funcionar melhor. Então, é só de uma perspectiva muito técnica, de cozinha do sistema de saúde e não da produção de cuidado de uma forma geral.”

Iniciativas como o fórum organizado pela equipe da saúde coletiva são importantes porque ativam “a potência de viver”, segundo a médica Vera Lúcia de Azevedo Dantas, membro do Comitê Nacional de Educação Popular em Saúde. “Eventos realizados por pessoas mais jovens nos despertam essa possibilidade de continuar vivendo coisas, caminhando no sentido da superação das situações de opressão e olhando para onde nós podemos caminhar, quais passos podemos dar. Quando a universidade, seja a partir dos educadores e de seus educandos, quando compreende que pode se juntar com movimentos sociais para buscar caminhos de renovação, de ativação. Estes caminhos são os que nos fazem continuar, como bem disse Galeano. Mesmo sabendo que a cada passo, o horizonte se afasta porque nos dá a certeza que precisamos caminhar mais.”

Presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, o médico Gastão Wagner de Sousa Campos enfatiza que a qualidade de vida depende de uma série de fatores além do serviço de saúde, como seguro desemprego, política habitacional, segurança pública. “No Brasil, o SUS é implantado com dificuldade, pois a concepção de direito universal é de que é um favor, é somente para população pobre. Mas apesar da implementação parcial, em 20 anos de existência, avançou muito. Hoje, 50% da população usa atenção primária, saúde da família, em que o primeiro atendimento é feito por médico generalista ou enfermeiro.” A proposta da saúde coletiva, segundo Campos, oferece atendimento tanto preventivo quanto clínico, cuidando das doenças para evitar hospitalização, agravamento, oferecer diagnóstico, medicamento. “A ideia é chegar a 80%, 90 % da população, mas a qualidade é heterogênea, depende da cidade, da prefeitura”.

Campos lembra que a saúde coletiva não atua somente na atenção básica, precisa existir uma rede, com hospital, cirurgia, tratamento, sistema de urgência, além de enfrentar as epidemias (strictu senso). “O SUS teve sucesso, por exemplo, na epidemia de Aids, com uma série de medidas preventivas, orientando sobre sexualidade responsável, por exemplo. Não se falava de sexo no sistema público, tivemos de falar com a epidemia de Aids. Além de ações de prevenção, foi oferecido tratamento.” Com relação a doenças que precisam de vacinas o Brasil melhorou muito, porque 95% da população brasileira é vacinada, exceto febre amarela.

“Apesar de toda a situação que se encontra o país, o SUS neste momento, ainda temos muita gente que acredita num projeto de saúde em defesa da vida”, avaliou a assistente social e aluna do mestrado profissional Aparecida do Carmo Miranda Campos, uma das organizadoras do evento. A professora Daniele Pompei Sacardo enfatizou que o encontro foi uma oportunidade para pensar em novas soluções, refletir sobre os problemas atuais da área de saúde e usar verbos de ação como resistir, ponderar, compartilhar ideias. “É o momento de paramos para pensar coletivamente os caminhos para o SUS se reinventar diante de tantos desmontes e de tantos ataques.”